Refluxo

 

A maioria dos bebês regurgita ou vomita com freqüência nos primeiros meses de vida. Isto é tão conhecido como outras tantas características típicas desta fase da vida, mas nos últimos anos adquiriu o status quase que generalizado de doença. O resultado é que bebês normais estão recebendo a já popular associação Motilium (domperidona) e Label (ranitidina) de uma forma desnecessária e exagerada.

Existe uma doença que está bem descrita nos manuais médicos e deveria ser bem conhecida por todos os pediatras: chama-se “doença do refluxo gastroesofágico” e suas características incluem bebês com choro excessivo, com perda ou pouco ganho de peso e sintomas decorrentes de complicações gastrointestinais e pulmonares, entre outros.

Os pediatras, através de uma adequada avaliação clínica e com alguns exames complementares, podem estabelecer o diagnóstico e o tratamento adequados.

Mas o que se observa é que alguns pediatras, influenciados por uma intrincada rede que inclui entre outros fatores a insegurança, a sedução por parte dos laboratórios e a pressão por parte dos pais pela receita, acabam instituindo tratamentos para crianças normais.

“O refluxo gastroesofágico é um evento funcional frequente e mais observado em lactentes até os seis meses de idade. Há tendência à resolução espontânea e somente uma parcela desses lactentes apresenta complicações ou sintomas associados ao refluxo”. O refluxo gastroesofágico fisiológico é “reconhecido (...) por sua condição benigna, caracterizado pela regurgitação do conteúdo lácteo para o esôfago e orofaringe, sendo auto-limitado e não associado à doença” (Pronap – Programa Nacional de Educação Continuada em Pediatria, Ciclo XI, núm. 2).

Fica a sugestão para que os pais procurem ter um senso mais crítico quanto ao uso de medicamentos em seus bebês, questionando seus pediatras sobre a real necessidade do tratamento. É bom lembrar que até alguns anos atrás os bebês com refluxo recebiam em seus tratamentos uma medicação (Prepulsid) que acabou banida do mercado devido aos seus efeitos colaterais graves, como arritmias cardíacasO refluxo de material ácido do estômago para o esôfago não significa necessariamente doença. Ele é comum e ocorre diversas vezes ao dia em todas as pessoas, mas por curtos períodos de tempo e esse ácido é eliminado do esôfago rapidamente. A mucosa do esôfago é pouco resistente ao ácido, mas tem a capacidade de suportar esse refluxo normal.

   Em alguns casos, a mucosa do esôfago pode ter sua resistência diminuída ou o ácido refluir mais vezes ou por mais tempo que a mucosa esofágica pode resistir. O ácido pode ainda refluir até a garganta, ou causar sintomas pela simples irritação do esôfago. Nessas situações, o refluxo deixa de ser considerado normal e trata-se de doença do refluxo gastroesofágico.

   

 

 

DOENÇA DO REFLUXO GÁSTRO-ESOFÁGICO - DRGE
 esofagite péptica, estenose péptica, úlcera do esófago e esófago de Barrett.
                            

      Quase todos sentimos ocasionalmente, geralmente depois duma refeição abundante ou com muita gordura, o refluxo do ácido do estômago para o esófago o que nos dá uma sensação de queimadura ( no Brasil dizem queimação ), de ardor, de azedo, que pode ir do estômago até à garganta. Esse  refluxo esporádico, ocasional, do conteúdo do estômago ( ácido clorídrico, pepsina, bílis etc. ) é considerado normal, mas pode tornar-se incomodativo, anormal, transformar-se numa doença e necessitar de tratamento. A Doença do Refluxo Gastro-esofágico ( DRGE ) é a afecção mais frequente do esófago, e uma das doenças mais frequentes do Aparelho Digestivo, embora só a tenhamos conhecido melhor nos últimos anos.

Como se manifesta o refluxo ?:

      O sintoma mais frequente é a sensação de queimadura por detrás do externo (a palavra pirose que os médicos utilizam, para traduzir essa sensação, deriva do grego pyrosis que significa acção de queimar). É este significado que devemos dar à palavra azia. Assim o entende também o Dicionário Houaiss de Sinónimos: azia, acidez, pirose, queimação.
      A regurgitação do conteúdo do estômago para o esófago é quase sempre uma sensação evidente, que acompanha a sensação de queimadura.
     A Doença do Refluxo pode causar outros sintomas para além da sensação de queimadura e da regurgitação. Pode ser causa de dor no epigastro ou no tórax. A dor no tórax pode pôr problemas de diagnóstico diferencial com a dor torácica de origem cardíaca ou de outra origem: óssea, articular, muscular etc. Se tiver dúvidas, o nosso médico, pergunta-nos pormenores sobre o aparecimento da dor e recorre a exames complementares ( Rx do tórax, Electrocardiograma etc. ) para chegar a um diagnóstico certo.
      Com alguma frequência a DRGE manifesta-se com sintomas da orofaringe ou sintomas respiratórios: ardor,  sensação desagradável na garganta, rouquidão, tosse, asma. 
      Em alguns casos, se houver aperto do esófago, pode haver dificuldade na passagem dos alimentos para o estômago ( disfagia ) ou essa passagem ser dolorosa ( odinofagia ).

Porque é que o refluxo gastro-esofágico acontece ?:

     O esófago é um tubo com cerca de 20 cm que leva os alimentos até ao estômago. Nos 2 centímetros finais do esófago existe uma zona de maior pressão que constitui o Esfíncter Esofágico Inferior ( EEI ). O EEI depois da deglutição dos alimentos abre-se para os deixar passar para o estômago mas contrai-se de seguida para impedir que o conteúdo do estômago reflua do estômago para o esófago.

No entanto, esse esfíncter ( EEI ) nem sempre funciona bem, nem sempre faz uma tensão suficiente e deixa que o conteúdo do estômago reflua, retroceda, para o esófago. Chama-se a isso refluxo gastro-esofágico. 

      As refeições volumosas aumentam a pressão dentro do estômago e facilitam o refluxo mas outros factores podem contribuir para diminuir a tensão do EEI e facilitar o refluxo:

  • Nicotina - qualquer tabaco

  • Alimentos com gordura

  • Cafeína

  • Álcool

  • Gravidez

  • Hérnia do hiato ( é controversa a importância da hérnia na DRGE. A hérnia do hiato observa-se na maior parte das pessoas depois de 50 anos de idade e não causa qualquer sintoma, há estudos que provam que nalguns casos, a hérnia do hiato, agrava os sintomas da DRGE.

  •  Alguns medicamentos que diminuem a pressão do EEI ( esfíncter esofágico inferior) ou diminuem o movimentos propulsivos. É muito usada a associação dum ansiolítico, com o antiespasmódico clidínio, comercializada com o nome Librax e que pode agravar o refluxo.

A doença do refluxo gastro-esofágico é uma doença grave ?:

     Não. É uma doença muito frequente - atinge 30% ou mais, da população do mundo ocidental -  e pode ser muito incomodativa, pode ser causa de má qualidade de vida, mas raramente, muito raramente, tem complicações graves.

  Como se faz o diagnóstico do refluxo ?:

     Na maior parte dos casos os sintomas, são o suficiente, para fazer o diagnóstico e iniciar o tratamento. O nosso médico pode, no entanto,  mandar fazer alguns exames para nos sossegar, para nos garantir que não há nenhum tumor e para se certificar se há ou não lesões no esófago causadas pelo refluxo: 

  • A endoscopia alta é o exame mais utilizado e, permite observar o esófago, o estômago e o duodeno. Em cerca de 50% dos casos a observação endoscópica não mostra nenhuma alteração apesar de haver Doença do Refluxo. A lesão que o endoscopista observa com maior frequência são as erosões na zona final do esófago. As lesões mais graves, estenose ( aperto ) do esófago, úlcera do esófago e esófago de Barrett, são pouco frequentes. 

  • A manometria e a pHmetria esofágica são testes que permitem medir a pressão e o pH na extremidade do esófago mas o médico raramente necessita de recorrer a estes testes..

Complicações do refluxo gastro-esofágico:

     Em cerca de 50% dos casos a endoscopia não mostra nenhuma alteração. É a chamada Doença do Refluxo Endoscopicamente Negativa ( DREN ) ou Não Erosiva. ( DRNE )

 As complicações graves são felizmente raras. A DRGE é causa frequente de má qualidade de vida mas, a mortalidade, é praticamente nula.

  • As erosões do esófago, que constituem a esofagite péptica, podem ser mais ou menos exuberantes  e podem desaparecer com o tratamento. O sangramento destas erosões é pouco frequente mas, pode dar origem a hemorragia aparente ou a pequenas perdas de sangue que causam anemia.

  • O aperto ou estenose do esófago é uma complicação rara que pode exigir a dilatação do esófago para alargar o diâmetro. O aperto do esófago leva a que os alimentos, sobretudo sólidos, tenham dificuldade em passar para o estômago ( disfagia ). Os alimentos ficam empancados ou empachados no esófago e não chegam ao estômago. 

  • O esófago de Barrett é outra complicação rara da DRGE. A mucosa da parte final do esófago é substituída por mucosa com características histológicas semelhantes à mucosa do estômago e do intestino. É  uma complicação rara que exige vigilância com  endoscopias e biopsias periódicas porque o esófago de Barrett pode evoluir para tumor do esófago.

  • Complicações da orofaringe são frequentes e são motivo de frequentes consultas ao otorrinolaringologista: ardor, rouquidão.

  • Complicações pulmonares são possíveis: asma, bronquite, pneumonia.

Tratamento: 

  • Há atitudes simples que diminuem o refluxo e podem resolver os casos mais simples: 

    • Não fazer refeições muito volumosas nem com muita gordura

    • Não nos deitarmos logo após a refeição

    • Se há excesso de peso emagrecer

    • Não fumar - o tabaco diminui a pressão do EEI facilitando o refluxo

    • Beber álcool e café moderadamente

    • Dormir numa cama com a cabeceira mais alta - medida pouco prática, desagradável e pouco eficaz.

    • Tomar um antiácido em SOS ( são medicamentos de venda livre e podem adquirir-se nos supermercados em vários países, USA, UK,  em Portugal nas Farmácias. ). Se já estamos com azia instalada, deixar dissolver um comprimido de Maalox na boca pode ser o suficiente para obter alívio durante algum tempo. Alguns antiácidos contêm cálcio ou/e sódio e devem ser evitados - infelizmente são os mais conhecidos e mais utilizados.

  • Tratamento farmacológico:

      A Doença do Refluxo Gastro-esofágico pode manifestar-se por sintomas muito ligeiros que aliviam com um anti-ácido ou mesmo com modificações do estilo de vida e dietéticas como atrás ficou escrito.
       Com frequência, para se obter alívio é necessário um tratamento mais eficaz e necessitamos da orientação do nosso médico. O nosso médico ensina-nos a manejar medicamentos inibidores do ácido clorídrico, muito eficazes, que  impedem  completamente ou quase completamente o aparecimento de sintomas. Devemos tomar os inibidores do ácido clorídrico ou diariamente ou em dias alternados ou em SOS ( on demand ) quando tivermos queixas. Cada um de nós encontra a melhor maneira de não ter sintomas e ter boa qualidade de vida. A muitas pessoas basta-lhes tomar um comprimido antes das refeições que já sabem que lhes vão causar azia.
        Mas o nosso médico ensina-nos também que estes inibidores do ácido clorídrico, tão úteis para impedir o aparecimento da azia de nada servem quando já estamos com azia. Neste caso devemos mastigar um  antiácido. Trazer um antiácido na mala de mão é absolutamente necessário para quem  quer obter alívio deste sintoma desagradáve.
      A DRGE é uma doença crónica, recorrente.
      Não conhecemos tratamento que cure definitivamente a doença. Quando paramos o tratamento podemos estar tempos longos sem sintomas  mas, com frequência, algum tempo depois reaparecerem e então temos que retomar o tratamento.
     Como já atrás ficou dito em cerca de 50% dos casos de DRGE a endoscopia é normal. Esta variante da doença chama-se doença do refluxo não erosiva, DRNE, e deve ser tratada como a DRGE erosiva.

  • Tratamento cirúrgico:

      O tratamento cirúrgico anti-refluxo utiliza-se pouco. A moderna técnica laparoscópica pode ser considerada nos indivíduos jovens.
    Os casos de DRGE que respondem mal ao tratamento médico também respondem mal ao tratamento cirúrgico. Este argumento, da má resposta ao tratamento médico, para justificar o tratamento cirúrgico é muitas vezes invocado mas é um argumento falso.

  • Tratamento endoscópico:

      O tratamento endoscópico da DRGE está ainda a dar os primeiros passos. Os primeiros resultados da gastroplastia endoscópica feita com um aparelho de sutura começam a aparecer na literatura médica. É ainda cedo para tirar conclusões sobre a eficácia desta técnica.

 

fonte: Gastro algarve